Sessão plenária
Domingo 21 de julho 2002
Grande Auditorium




21 de Julho de 2002

Seção plenária, no Grande auditório, versão en 1800 lugares, com tradução simultânea em cinco linguas.
Acolhida as 8h30
Les travaux commenceront à 9h30 heures précises.

9h30-10h30 ÉLUCIDATIONS DE LA CLINIQUE DE LA SEXUATION
Sex-ratio,
par Graciela Brodsky (EOL)
El objeto (a)sexuado,
par Miquel Bassols (ELP)

10h30-10h40 SUR LA NÉVROSE INFANTILE DANS LA CURE DE L’ADULTE
Sexualidad y síntoma : la luz del ángel,
par Gabriela D’Argentón (EOL)
La curiosidad infantil,
par Hilario Cid Vivas (ELP)

10h40-11h10 SUR LA SEXUALITÉ FÉMININE
Mort et résurrection de l’hystérique,
par Marie-Hélène Brousse (EEP)
Panic room,
par Philippe La Sagna (ECF)
Le sexe est un dire,
par Monica Torres (EOL)

11h10-11h50 CONTINGENCES DE LA VIE SEXUELLE DANS LA PSYCHOSE
par Lilia Mahjoub, Hervé Castanet, Jean-Pierre Deffieux, François Leguil, enseignants des Sections cliniques de Paris, Marseille et Bordeaux

11h50-12h15 DE FREUD À LACAN
La castration hétéroclite : la solution lacanienne,
par un cartel de l’EOL

12h15-12h45 SUR LE THÈME DE CHACUNE DES SIMULTANÉES
Lire ce qui passe,
par Mercedes de Francisco (Madrid), pour la FIBCF
Une question intéressante,
par Daniel Roy (Bordeaux), pour le Cereda
Savoir-faire et embarras du CIEN,
par Monique Kusnierek, pour le CIEN
Que reste-t-il des mystères de la sexualité ?,
par Sonia Chiriaco, pour Clip-M.
Inventer la place d’où le sujet construit sa norme propre,
par Philippe Lacadée (Bordeaux), pour le RI3
Drogue et l’Autre sexe : une logique du court-circuit,
par Jésus Santiago (Belo Horizonte), pour le Ty A

15h-16h DEUX RÉFÉRENCES DE JACQUES LACAN
Dante e l’amore,
par Antonio Di Ciaccia (SLP)
Les Précieuses : un discours au féminin ? En corps ou pas,
par Myriam Maître (Université de Rouen) et Herbert Wachsberger (ECF)

16h-16h30 LE CAS VIRGNIAWOLF
par Jacques Aubert (ECF)

16h30-17h LES FÉMINISTES ET FREUD
par Pierre-Gilles Guéguen (ECF)

17h-17h30 QUELS PARTIS PRENDRE ?
La place royale, de Pierre Corneille, extraits du film de Benoît Jacquot, mise en scène de Brigitte Jaques
avec Brigitte Jaques et François Regnault

17h-18h CONCLUSIONS
par Éric Laurent (ECF) et Alexandre Stevens (EEP)







Terras incógnitas

Lacan se apoia no testemunho das Preciosas, ele presta homenagem ao modelo que elas lhe oferecem, mas a lição que a elas atribui, se reduz por vezes a algumas asserções das quais esperamos em vão das Preciosas a chave. Inútil esperar da alcova o que vem do divã e deverá, além disso, ser referido aos períodos de um ensino onde as Preciosas comparecem durante mais de vinte anos.

Das duas posturas da crítica (1), a afirmação da existência de uma corrente preciosa portada por individualidades precisas, de um lado, e a recusa, por outro lado, de nisto acreditar, é à primeira, a efetividade do fenômeno precioso nas suas dimensões histórica, política, social, moral e literária, que Lacan adere, ao lado de Adam(2), ou de Lathuillère(3), e hoje de Myriam Maître(4).

Desta escolha decorre uma outra, a de limitar este fenômeno no tempo, de 1654 a um pouco além de 166O, segundo a estimativa mais ajustada: na saída da Fronda, sob a Regência de Ana da Áustria, antes do advento do Rei Sol.

Que credibilidade conceder aos textos de que dispomos? Nenhuma das mulheres da época reivindicou o título de preciosa. Permaneceram “ligadas as formas orais da criação linguageira, e sua participação nas letras separa-se dificilmente das formas mais gerais da sociabilidade mundana”explica po sua vez Myriam Maître(5). Os críticos atribuem grande importância a la Pretieuse do padre de Pure(6), mas as opiniões divergem: a obra não é mais do que uma mixórdia de “tudo o que se pode dizer desde a Renascença, a favor ou contra a emacipação intelectual, social e conjugal das mulheres(7)” ou a reportagem atenta de um alcoviste convencido que ”conhece muito intimamente os círculos preciosos(8)?

Citemos ainda Clélie, Histoire romaine, o terceiro dos quatro romances publicados sob o nome de Georges de Scudéry, o único de que estamos seguros que Madeleine sua irmã, é o autor, e cujos dez tomos, em osmose com os temas debatidos nas alcovas, acompanharam o período das Preciosas; as Preciosas ridículas que marcaram o fim da voga dos círculos preciosos, mas fizeram admitir Molière e sua companhia entre aqueles de que falavam as gazetas(9); os Dicionários de Somaize, por fim.

Amor Primário, Amor Genital

As Preciosas são utilizadas em um dos primeiros seminários de Lacan(11), a respeito de uma tese paradoxal(12), que faz derivar de uma relação de objeto primária, fechada sobre si mesma, o objeto apropriado a satisfação sexual numa relação de amor genital. a ternura, este ä mais” que dá ao laço genital sua característica de amor verdadeiro teria da mesma forma uma origem pré-genital.

Mas de onde se originam estas miragens do amor que vestem o ato genital (13), exclama Lacan, senão de uma intersubjetividade, que necessita o Outro, onde se modulam os sentimentos?

Em apoio de seus argumentos, Lacan desenrola a carta do Terno. Uma carta alegórica, segundo a voga da época, mas a da Senhorita de Scudéry, que não foi a primeira, ultrapassou as outras. Ela a inventou no tempo de seis meses que concedera ao jovem e recente acadêmico Paul Pellisson, que a galanteava– ela própria já sendo uma Beleza passada – para conseguir, partindo de um lugar invejável que ele ocupava entre os “amigos particulares”, para obter um entre os “Ternos Amigos,” o mais próximo de seu coração. Quantos caminhos, de Particular a Terno? Perguntou Pellisson na sua pressa de atingir o alvo (14). A Senhorita de Scudéry desenhou para ele a famosa carta; ela o introduzirá no primeiro tomo de sua Clélie(15). O riacho Inclinação leva diretamente a Terno, mas há outras causas para a ternura por inclinação e outras vias para atingi-la. Elas passam por Terno por Inclinação, Terno por Estima, terno por Reconhecimento. E porque não galantemente entreter-se com Belos Versos ou Bilhete amoroso ou Submissão e Pequenos Cuidados.

Que não se espere de Lacan uma análise psicológica do romance da Senhorita de Scudéry. Apenas o retém as figuras criadas por “esta amável sociedade inteiramente votada ao aperfeiçoamento da linguagem”(16). Ele esquadrinha Somaize(17) e lhe retoma “entre mil outras” esta forma – a palavra me falta – colhida da boca do poeta Saint Amand, e cujo sintagma retranscrito na Segunda tiragem de seu dicionário – Eu sei bem o que quero dizer, mas a palavra me falta- soa ainda a tal ponto nova que lhe é necessário traduzir: Não posso me explicar como eu queria.

Estas invenções da conversação no contexto do seminário, são julgadas segundo a medida da função criadora da palavra, mas também de seus tropeços. “Há uma relação entre a carta do Terno, e a psicologia psicanalítica(18), estima Lacan que se volta para o esquecimento da palavra: Signorelli assombra a alcova.

Amor físico, amor extático

No terceiro seminário, Lacan ressalta a importância do movimento das Preciosas para a história da língua, dos pensamentos, dos costumes(19).

Do palacete, não longe do Louvre, de que a Marquesa de Rambouillet fez “o templo do gosto e o tribunal das reputações literárias(20), ao palacete da rua de Beauce, no Marais, onde a Senhorita de Scudéry vai oficiar sob o nome de Safo, houve uma continuidade na prática do que se chamará os salões, mas também uma ruptura devida à irrupção de um fenômeno sem exemplo, que colocou no primeiro plano a questão feminina. Madeleine de Scudery foi um de seus pólos.

Paul Benichou(21) pensa poder definir a preciosidade não no plano literário, se bem que a preciosa pretenda ser antes de tudo letradas, mas segundo duas vertentes constitutivas desta questão feminina: o domínio moral dos direitos do amor, próprio da filosofia das Preciosas e o domínio social dos direitos da mulher, que toca a condição feminina no seio da sociedade.

A preciosidade retomaria as posições tradicionais da literatura romanesca e cortês que Bénichou resume : religião do amor, recusa do instinto natural, apelo a inteligência para sublimá-lo. Donde as críticas opostas feitas a preciosidade, de ser um excesso de austeridade – as Preciosas, jansenistas do amor, ter-se-ia dito- e de encoragjar a libertinagem.

No terceiro seminário, Lacan lembra de novo Somaize e cita Bary (22). Mas empresta sua atenção ao “organismo da linguagem”( não é ainda a estrutura) da qual é necessário, diz ele, ter “o fichário mais completo possível (23). Segundo esta nova perspectiva, a falta da palavra recebe uma outra explicação: se ela falta, é que aí estava. A tese freudiana do esquecimento é abandonada, ela será formamelmente reijeitada em 1965(24).

As expressões preciosas são agora aproximadas dos fenômenos verbais da psicose do presidente Schreber considerada na particularidade de sua erotomania divina. Lacan apela para a oposição medieval entre teoria física e teoria extática do amor (25).

O psicótico, que ama seu delírio como a si mesmo( aqui, Lacan se conforma com Freud) não satisfaz o princípio do amor extático segundo Rousselot, que é de amar “de pessoa a pessoa”. Ele não renunciou ao amor de si: sua maneira de amar se atém a natureza(000) No entanto, sua relação com o Outro subsiste, mas é um Outro radicalmente heterogêneo, que ele só pode apreender pelo significante, casca esvaziada desta intersubjetividade em que se funda a palavra plena. Ele não acede ao amor extático “de pura dualidade”. Só tendo relação com a forma da palavra, ele ama com um amor morto (26) onde ele está abolido como sujeito .

Lacan constrói uma analogia entre este amor psicótico e a degradação do amor que ele observa, a partir da forma cortês até ao amor romântico, passando pela Astréia, “onde dois falso camponeses conduzem improváveis cordeiros, dissertam longamente sobre o amor(27) “ e pelo amor precioso, que são outras tantas etapas na vida desta “queda no irrisório” das formas do “ficar apaixonado”. O laço do espectador com a imagem na obscuridade de uma sala escura seria disso o extremo dejeto.

O amoroso Schreber, arrastando sua alma assassinada nos caminhos abandonados da carta do Terno, com que ele povoa as aldeias sem vida de um « floração imaginária de modos de ser » reencontra no seu maneirismo verbal a forma da linguagem preciosa e a esclarece. A preciosidade aí encontra-se depreciada : « inscrição do amor em palavras sem importância », estatuirá Lacan alguns anos mais tarde(28). Mas o contexto terá mudado.

Amor socrático, amor cortês

Com efeito, a mulher chegou ao centro da questão do amor. Como sua pessoa se isola da ganga de sua função? Como ela adquire sua liberdade?

Nada, na sociedade feudal, responde a uma promoção da mulher, a uma liberação, constata Lacan. O modelo cortês, que participa de um processo de civilização dos costumes já esboçado, terá tido pouco efeito sobre as relações entre os sexos e na melhoria da condição feminina. (29) E da jurisdição da casuística amorosa das cortes de amor à arte social da conversação que toma suas balizas na Carta de Terno, o ganho terá sido de pouca importância.

É no contexto de “vassalagem instituído entre o amante-cavaleiro e sua Dama” e onde a fidelidade “se opõe tanto ao casamento quanto a “satisfação” do amor (30), que se põe a exercer-se , ressalta Lacan, a função do poeta cortês(31). Seu exercício poético joga com os ideais da Dama. Mas não há possibilidade de cantar a Dama sem o pressuposto de uma barreira que a isola.

Lacan vai romper com as explicações tradicionais. Se existe um paralelismo entre uma via sublimatória e a ascensão da Dama ao zênite da erótica ocidental, é porque o poeta cortes leva a sublimação a sublimação , “no lugar sabiamente construído por significantes refinados” o vazio da Coisa”. (32) U ma maneira de introduzir o significante feminino pela porta singular da privação, da inacessibilidade.

O seminário sobre a transferência lembra por sua vez o declínio histórico do amor, tomado de mais alto. A comparação de dois períodos tão distantes como o do Banquete, onde o problema do amor se formula com palavras de plena importância, onde falar de amor, é falar de teologia, e o século XVII, onde o amor tomou “este ar de teatralização bestificante, permite a Lacan refutar a aproximação feita por Leon Robin,(33) tradutor do Banquete, de tal parte do elogio por Agatão do Amor ( cujos filhos Bem-estar, Delicadeza, Langor, Graciosidades, Ardores, Paixão, são “ abstrações realizadas” comenta Robin) e a carta do Terno( 34).

O acento colocado na reviravolta socrática da função do desejante será o aporte deste seminário. Respondendo ao discurso de Agatão, Sócrates introduzirá “a função da falta como constitutiva da relação de amor (35).

Amor galante, eros precioso

As Preciosas reaparecem no fim das “Considerações diretivas para um Congresso sobre a sexualidade feminina”(36). Seu movimento, reafirmado como tal, é apresentado como o veículo de um eros homossexual. Aí está a dificuldade. “Aquilo que se destaca do vivido mais comum” sobre os quais Lacan refere na clínica a posição do sexo quanto ao objeto, vamos deles encontrar nas Preciosas alguma atestação?

Os argumentos não faltariam na história das Preciosas para sustentar a tese de um safismo que os costumes teriam tolerado. A homossexualidade teria mesmo protegido o território “ferozmente masculino” da amizade letrada ( 37) das intrusões femininas. Mas este eros homossexual no feminino não pode se confundir com “visibilidade amorosa ( 38) de um casal feminino admitido na Cidade, ainda menos designar uma prática ampliada.

É seguindo o fio de uma clínica centrada “na parte feminina do que se joga na relação genital” que se deveria apreender a tendência homossexual do desejo feminino nas Preciosas.

1.- Lacan nota a posição chave do falo no desenvolvimento libidinal da mulher, mas ele revisa suas coordenadas: a) não é sem o medium do homem que a mulher acede ao Outro que ela é para si mesma, b) esta mediação fálica não drena toda a corrente pulsional: nem tudo da feminilidade passa pelo fundo da agulha.

2.- A homossexualidade feminina é proposta como a melhor via para esclarecer “o acesso que leva da sexualidade feminina ao desejo mesmo”. E já que a referência fálica é conservada, compreende-se a questão de Lacan: qual “sorte outra ao desejo de preservar o falo materno a não ser o fetichismo, que permanece no domínio da perversão masculina?

3.- A jovem homossexual do caso de Freud escolhera, por desafio , de desafiar o pai, mostrando-lhe, numa relação de amor cortês, que se podia dar o que não se tinha. A homossexual não renuncia por isso a seu sexo, seu interesse supremo votando-se à feminilidade.

O que foi feito do eros das Preciosas?
Do lirismo veemente da Arenga de Safo a Erinne (39)

Ponham-se no estado de sustentar(...) a glória de nosso sexo, façam confessar a nossos comuns inimigos ( os homens) que nos é tão fácil vencer, pela força de nosso espírito quanto pela beleza de nossos olhos (...)façam ver, a toda a terra( ...) que só vocês tem a vantagem de ter restabelecido a glória de todas as mulheres.

as conversações que invadem a Clélie “uma outra face de mulher (40) surgiu. Doravante , a Senhorita de Scudery está em terreno conquistado. As partilhas foram feitas. O discurso precioso exalta a feminilidade, mas ele mantém na linha tanto o galante quanto a coquete.

A preciosa não quer o homem galante que mistura
ao respeito de um pastor
a impaciência de um sátiro
(41)

ou para dizê-lo com um tom mais elevado que admite as alegrias do amor – excluída a libertinagem – entre « os refinamentos da civilização ». O « macho da precisosa » é pela voz uníssona da assembléia, apesae de alguns passos em falso, ralhado duramente – o que torna sua presença indispensável.

Com a mesma firmeza, a preciosa rejeita a mascarada feminina, sua panóplia, seus artifícios: beleza artificial, pudicícia, disputa com uma outra mulher para lhe “furtar seu amante” maneirismo da preciosidade falsa ou ridícula são severamente condenadas.

Não é a crítica do casamento que permitiria definir uma “mentalidade preciosa específica” mas a terna amizade(42), este Amor de Ternura, cuja invenção foi atribuída a Senhorita de Scudéry (43).

1.-Amizade que, longe de ter rompido seu laço com o amor, é o que do amor se dá quando ele se recusa a satisfazer o desejo. A terna amizade é a quintessência do amor.

... eu sustento que a maior e a mais indubitável marca de uma grande paixão, é de ver um Amante que malgrado todos os seus suplícios, recebe com prazer o menor testemunho de amizade que sua Amante lhe possa dar (44)

2.-Amizade no masculino como no feminino, como se pode ler numa breve correspondência da Senhorita de Scudéry com a Senhorita Descartes (45), que deseja ardentemente encontrá-la. Safo responde:

Conheço todo o valor de sua voz. Desejava de fato que voce conhecesse da mesma forma o de minha amizade : porque em uma palavra, Senhorita, sou amável apenas porque sei amar minhas amigas de uma maneira terna e desinteressada, que me distingue de muitas outras.

Depois de se assegurar que sua correspondente jamais tivera amante, ela lhe pede seu coração:

Não o recuse a minha terna amizade,
Que vale mais que o amor de mais da metade.

A senhorita Descartes se apressa :

Não se pode recusar um coração
Que a ilustre Safo demanda.

depois volta atrás:

Parece que você só me salvou dos escolhos do amor, para me fazer perecer nos da amizade....

e exala sua queixa em um último dístico:

Você me faz amar, e terei a dor
De jamais ver o que eu amo.

3.Amizade que não liga o semelhante ao semelhante. Um outro laço social diverso do que cimenta as comunidades masculinas opera nos círculos femininos que as conversações reunem. Se nos fiamos as trocas dos protagonistas da Clélie e aos referidos pelo padre de Pure, os discursos se desenvolvem numa extrema fantasia, de forma aleatória, malgrado o tema proposto no início de cada novo encontro. As preciosas aí se fazem valer cada uma a sua moda, num esforço de bem dizer, uma por uma, sem esperar pelo consenso. Esta reunião de particularidades só obtém sua coesão por este além que constitui para cada uma das preciosas sua paixão e seu mistério : esta feminilidade pela qual inventam uma nova arte de amar.

Aí está esta espécie de paradoxo ressaltado por Lacan: este enriquecimento contínuo da informação numa esfera tão pouco organizada excede sua dissipação e resiste a entropia. Enquanto que o laço homogeneisante das comunidades homossexuais masculinas, aparentemente muito estruturadas, mas pouco consumidoras e produtoras de informação, aumenta a entropia e os conduz a degradação comunitária.

A entropia, aqui, se entende no quadro de uma teoria da informação ( e não da teoria da termodinâmica) e a informação de que se trata não é qualitativa ( os conteúdos da informação), mas quantitativa ( os elementos informativos) (46)

Enfim, ao zelo em favor da amizade terna, devemos ainda acrescentar o interêsse das Preciosas pela reforma da linguagem. Myriam Maître lembra seus traços : jargão , galimatias, neologismos, substantivações, reforma da ortografia ; corte das sílabas sujas, evitamenento das palavras obscenas (47). Este ponto de sua tese será retomando mais adiante.

Erro comum e discurso sexual

O fenômeno precioso é evocado de novo, na abertura do Seminário “... ou pior”, a propósito da homossexualidade feminina. Dez anos se passaram, Lacan está engajado na formulação lógica do não-todo e dos efeitos da impossível inscrição da relação sexual no humano. Ele não deixa de lembrar a importância de suas Considerações de 1960.

A questão da homossexualidade feminina é reestudada a partir de uma nova abordagem da diferença dos sexos e do erro que ela comporta, este erro comum, que faz passar enganosamente o significante fálico, significante da distinção entre os sexos, inscrito na linguagem, ao órgão como incarnação real desta distinção (48). É uma naturalização da distinção pela linguagem (49). O erro, além do mais, diz respeito ao gozo – suposto ser um gozo “instrumental” e sustenta um discurso sexual sobre o emparelhamento dos sexos.

Ali onde o neurótico, ao apreender que o órgão não é senão um instrumento intronizado pelo significante, tem a chance de escapar do erro comum, de sair do discurso sexual e abrir-se para o discurso analítico ; ali, onde o transexualista, para escapar ao erro comum e ao discurso comum que ele cobre, deseja se desfazer do órgão ; ali a homossexual , que permanece no erro comum que funda enganosamente a distinção dos sexos no órgão como referente natural, ataca o significante que ela não quer .

Assim fazem as Preciosas por seu « excesso na(s) palavra(s) de amor », mas não sem en refutar alguns – e Lacan , jogando com a consonância com Ecce Homo, símbolo crístico, com vocação de fetiche, comenta : « Elas não se arricam a tomar o falo por um significante ».

Avança então Armande das Femmes savantes, sapiente e pudica, personagem de Molière, tout a as mais, mas da qual Lacan faz uma preciosa que defende a liberdade das mulheres. Seu « Fora ! digo-lhes »é um desafio a O, o significante « sem par « como o nomeou uma vez Lacan e do qual ele diz querer ela quebrá-lo na sua letra pour dar conta dele até o final.

A tese de Myriam Maître a propósito do cuidado das Preciosas em purificar a linguagem vale ser citada neste lugar. Ela a relaciona a uma busca de pureza baseada numa « representação cratiliniana da linguagem »(1) : forjando a palavra, a preciosa acreditaria chegar ao fim da coisa. Esta concepção realista da « corporeidade da linguagem » seria fundadora de um « projeto ético » de construir uma lingua que honre as boas maneiras. Uma lingua, em todo caso, que facilite o discurso de amor, como o nota Lacan a propósito da homossexual.

Para além das colunas de Hércules

A nebulosa das Preciosas(51) marca uma etapa na história do amor no Ocidente. Elas são representativas de uma “filosofia do amor” (Bénichou) onde reivindicação feminina e reforma da linguagem convergem numa exigência de bem dizer a serviço de um eros homossexual no feminino. Lacan que não cita nem o padre de Pure, nem a Senhorita de Scudéry e que também não isola a Preciosa como um tipo, eleva o exemplo de Armande ( um personagem que deve mais a Molière do que a História) a dignidade de um paradigma intemporal.

O mistério das alcovas, se é de fato o da feminidade, é através disso desvendado?

Clélie – c’est-à-dire Mlle de Scudéry - explique.
Clélie – quer dizer a Senhorita de Scudéry – explica.

Também esta jovem bem comportada, querendo fazer conhecer sobre este mapa, que ela jamais tivera amor, e que jamais teria no coração senão ternura, faz com que o Riacho Inclinação se lance num Mar que se chama perigoso; porque ‘bastante perigoso para uma Mulher, ir um pouco além dos Últimos Limites da amizade & ela faz em seguida que para além deste Mar, está o que nós chamamos Terras incógnitas, porque com efeito não sabemos absolutamente o que existe & que não acreditamos que ninguém tenha ido mais longe que Hércules...(51)

Não se poderia atribuir a Senhorita de Scudéry uma visão tão limitada quanto a de seu comentador quando ele escreve: “Clélie, como boa mediterrânea, nada imagina além das colunas de Hércules e o perfeito amor, para ela, desaparece nas brumas atlânticas”.

Elle imagine, tout au contraire.
Ela imagina, bem ao contrário.

Herbert Wachsberger

Tradução : Manoel Barros da Motta
Com revisão de Paulo Costa Franco.



Notas

1-Maître, Myriam, Les précieuses. Naissance des femmes de lettres en France au XVIIe siècle, Editions Champion, 1999, p. 12 .
2-Adam, Antoine, « La préciosité », Cahiers de l’Association internationale des études françaises, 1951, n° 1 (Le baroque. La préciosité), p. 35-47.
3-Lathuillère, Roger, La préciosité. Etude historique et linguistique, tome I, Position du problème – Les origines, Librairie Droz, Genève, 1969..Apenas o primeiro volume foi publicado
4-Maître, Myriam, o. c.
5-Id., ibid., p. 17.
6-Abbé Michel de Pure, La Prétieuse ou le Mystère des ruelles, texte publié d’après l’édition originale avec une notice inédite sur l’abbé de Pure, une bibliographie et des notes par Emile Magne, VII-XCII, tomes I (Première et deuxième parties) et II (Troisième et quatrième parties), Paris, Librairie E. Droz, 1939.
7-Duchêne, Roger, Les Précieuses ou comment l’esprit vient aux femmes suivies de Antoine Baudeau de Somaize : Les Véritables Précieuses, Les Précieuses ridicules mises en vers, Le Grand Dictionnaire des Précieuses, ou la Clé de la langue des ruelles, (1660), Le Grand Dictionnaire des Précieuses (1661) et autres annexes, Librairie Arthème Fayard, 2001.
8-Adam, Antoine, Histoire de la littérature française au XVIIe siècle, tome II, L’époque de Pascal, Editions mondiales, Paris, 1962, p. 156.
9-Duchêne, Roger, o. c., p. 9.
10-Baudeau de Somaize, Antoine, I. Dictionnaire des Prétieuses par le sieur de Somaize, édition de 1656. – II. Le grand dictionnaire des Pretieuses, I-III, réimpression de l’édition de Paris, 1661, Slatkine Reprints, 1972. Comprend : Le grand Dictionnaire des Pretieuses, Historique, Poetique, Geographique, Cosmographique, Cronologique & Armoirique, première partie, 1661, 314 pages. – Le grand Dictionnaire historique des Pretieuses, seconde partie, 1661, 320 pages. – La clef du grand Dictionnaire historique des Pretieuses, 46 pages.
11-Séminário, livro I, Os escritos técnicos de Freud, 1953-1954, texto estabelecido por Jacques-Alain Miller, Jorge Zahar Editor, 1986, p. 244.
12-Balint, Alice (1939), « Amour pour la mère et amour de la mère » et Balint, Michael (1947), « L’amour génital », in Amour primaire et technique psychanalytique, Payot, Paris, 1972, p. 110-142.
13-Seminário, livro I, o. c., p. 244.
14-Mongrédien, Georges, Madeleine de Scudéry et son salon, Editions Tallandier, Paris, 1946.
15-Scudéry, Georges de, Clélie. Histoire romaine, tomes I-X, Slatkine reprints, reimpressão da edição de 1660, Genève, 1978.
16- O Seminário, livre I, o. c., p. 305.
17-Provavelmente o Dictionnaire des Prétieuses de 1656.
18-O Seminário, livro I, p. 305.
19-O Seminário, livre III, As psicoses, texto estabelecido por Jacques-Alain Miller, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1985, p. 134-135.
20-Picard Roger, Les salons littéraires et la société française, 1610-1789, Brentano’s, 2e édition, New York, 1943. – Cf. também, Fumaroli, Marc, « La conversation » [1992], in Trois institutions littéraires, Editions Gallimard, Folio histoire, Paris, 1994, p. 111-210.Há uma versão de uma parte deste texto em Opção Lacaniana número 23, dezembro de 1998.
21-Bénichou, Paul, Morales du grand siècle, Editions Gallimard, folio essais, Paris, 1994 (1ère édition 1948), p. 246 et suivantes.
22-Bary, René (Berolas, selon l’Historique des Pretieuses, de Somaize) « é um Autor , que trabalhou para o endotrinamento das Preciosas que desconhecem o Latim ». Sua Retórica françesa de 1653 prodigava conselhos para enriquecer e enobrecer a expressão. Um exemplo : em lugar de dizer : o que eu lhes apresento é um círculo, deve-se dizer :a coisa com que os entretenho é uma superfície cujos lados distam igualmente« de seu centro. » Citado par Pelous, o. c. p. 417.
23-O Swminário livro III, o. c., p. 135.
24- « Problèmes cruciaux pour la psychanalyse », séminaire du 12 mais 1965, publicação em curso.
25-Rousselot, Pierre (1907), Pour l’histoire du problème de l’amour au Moyen Age, Librairie philosophique J. Vrin, Paris, 1981, reedição da edição de 1933.
26-O Seminário, livro III, o. c., p. 287-288.
27-Lafond, Jean, préface à l’Astrée d’Honoré d’Urfé, folio, Paris, 1988, p. 7.
28- O Seminário, livro VIII, A transferência, texto estabelecido por Jacques-Alain Miller, Jorge Zahar Editor , 1992, p. 52.
29-Roussel, Claude, « Courtoisie et féminité : le jeu des dames », in Du goût, de la conversation et des femmes, études rassemblées par Alain Montandon, Centre de Recherche sur les Littératures Modernes et Contemporaines, Association des Publications de la Faculté des Lettres et Sciences Humaines de Clermont-Ferrand, 1994, p. 149-165.
30-Denis de Rougemont, L’amour et l’Occident, edição definitiva, Librairie Plon, 10/18, Paris, 1972, p. 35.
31-O Seminário, livre VII, A ética da psicanálise, texto estabelecido por Jacques-Alain Miler, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1988, p. 185.
32-Ibid., p. 200
33-Nota 3, página 44, da tradução do Banquete por Léon Robin (1929) nas Edições Les Belles Lettres, Paris, 1981.
34- Lacan, p. 131 do livro VII du Seminário.feito
35-Lacan, livro VIII du Seminário,Rio de JANEIRO, Jorge zahar editor, 1992, p. 119.
36-In Lacan, Jacques, Escritos, Jorge Zahar Editor, coleção « o campo freudiano no Brasil », Rio de Janeiro, 1998 p. 745. feito
37-Maître, o. c., p. 586.
38-Bonnet, Marie-Jo, Les deux amies. Essai sur le couple de femmes dans l’art, Editions Blanche, Paris, 2000, p. 57.
39--Madeleine de Scudéry, Les Femmes illustres ou les Harangues héroïques, 1642, préface de Claude Maignien, côté-femmes éditions, Paris, 1991, p. 162.
40-Godenne, René, Les romans de Mademoiselle de Scudéry, Librairie Droz, Genève, 1963. Os desenvolvimentos sobre o amor na Clélie devem muito a esta obra.
41-Charleval, citado por Pelous, o. c., p. 198.
42- Pelous, o. c., p. 340.
43-Citado por Maître, o. c., p. 587.
44-Clélie, o. c., tome VI, p. 979.
45-in Rathery et Boutron, Mademoiselle de Scudéry. Sa vie et sa correspondance avec un choix de ses poésies, Léon Tachener, Librairie-Editeur, Paris, 1873, p. 393-403.
46-Lacan dá as fontes de sua reflexão sobre a entropia no livro II do Seminário.
47-Maître, Myriam, o. c., todo o capítulo sobre o amor intitulado « L’amour, geste langagier », p. 570-633.
48-Lacan, Jacques, « …ou pire », seminário de 8. 12. 1971, publicação em curso.
49-Steinberg, Sylvie, « L’inégalité entre les sexes et l’égalité entre les hommes. Le tournant des Lumières », Esprit (L’un et l’autre sexe) , mars – avril 2001, p. 23-39.
50-Maître, o. c., p. 618
51-Maître, o. c., p. 655.
52-Clélie, tome I, p. 405, citado par Pelous, o. c., p. 16.
53-Pelous, o. c., p. 17.



Les Precieuses, eléments de bibliographie

Sur le caractère historique du phénomène précieux :
(1654-1661 pour une périodisation étroite, 1643-circa 1750 pour une périodisation large)

ADAM (Antoine), « La préciosité », Paris, CAIEF, n° 1, 1951, p. 35-47. Le premier pas vers une approche historique de la préciosité. Pour l’essentiel, repris dans Histoire de la littérature française au XVIIe siècle, 1957, rééd. Albin Michel, coll. « Bibliothèque de l’Evolution de l’Humanité », 1997, 3 vol., tome II L’époque de Pascal.

DUCHÊNE (Roger), Les précieuses, ou comment l’esprit vint aux femmes, Paris, Fayard, 2001. Enquête chronologique sur la naissance d’un mythe ambigu et d’une supercherie littéraire, dont Molière fut le principal acteur. Suivi des principaux textes concernant les précieuses, de Somaize en particulier.

LATHUILLERE (Roger), La Préciosité. Etude historique et linguistique, Genève, Droz, 1969. Première partie d’une thèse qui situe le phénomène précieux dans le temps et dans l’espace, et le définit comme l’interaction de phénomènes moraux, sociaux, linguistiques et littéraires.

MAÎTRE (Myriam), Les précieuses. Naissance des femmes de lettres en France au XVIIe siècle, Paris, H. Champion, 1999. Enquête historique sur celles que, de façon souvent très ambiguë, on nomma précieuses : dernières Dames et premières femmes de lettres, pour la plupart attachées à l’idéal d’un façonnage de l’élan passionnel par la conversation, au moment où naît la « littérature ».

TIMMERMANS (Linda), L’accès des femmes à la culture (1598-1715), Paris, H. Champion, 1993. Thèse très complète sur le débat d’idées que suscite la culture féminine. Pages 104-122 consacrées à la préciosité, et passim.

Sur l’amour, le tendre

DAUMAS (Maurice), La tendresse amoureuse, XVI-XVIIIe siècles, Paris, Perrin, 1996, coll. « Pluriel » 1997.

FILTEAU (C.), « Le Pays de Tendre : l’enjeu d’une carte », Littérature n° 36, 1979, p. 37-60. Analyse très ingénieuse de la topographie précieuse à la lumière des traités de cartographie et d’anatomie.

PELOUS (Jean-Michel), Amour précieux, amour galant (1654-1675), Essai sur la représentation de l’amour dans la littérature et la société mondaines, Paris, Klincksieck, 1980. Montre comment la « subversion galante » vient à bout de « l’orthodoxie tendre », au tournant du siècle.

Sur le « parler précieux »

BRUNOT (Ferdinand), Histoire de la langue française des origines à nos jours, tome III : la formation de la langue classique (1933), rééd. avec une bibliographie par Roger Lethuillère, Paris, A. Colin, 1966, Ière partie, « La Préciosité » p. 66-74.

DENIS (Delphine), « Ce que ‘parler prétieux’ veut dire : les enseignements d’une fiction linguistique au XVIIe siècle », L’Information grammaticale n° 78, Paris, juin 1998, p. 53-58.

LATHUILLERE (Roger), « La langue des précieux », Travaux de Linguistique et de  Littérature, XXV, 1, Paris, 1987, p. 243-269.

A dix ans de distance, ces deux articles proposent deux lectures contrastées du langage précieux, selon qu’on le pense attesté ou au contraire forgé. Le débat reste ouvert, notamment à propos de l’influence de Guez de Balzac (si l’on n’a peut-être pas « parlé précieux », il semble bien qu’on ait « parlé Balzac », ou failli le faire).

Approches inspirées de la psychologie et de la psychanalyse

BENICHOU (Paul), Morales du Grand Siècle, Paris, Gallimard, 1948. Sur la « névrose précieuse », « antinomie du bonheur et de la dignité » (p. 326-328 en coll. « Idées »), voir le chapitre consacré à Molière.

HEPP (Noémi), « A propos de la Clélie : mélancolie et perfection féminine », Mélanges offerts à Georges Couton, P.U. de Lyon, 1981, p. 161-168.

MORLET-CHANTALAT (Chantal), La Clélie de Mademoiselle de Scudéry. De l’épopée à la gazette : un discours féminin de la gloire, Paris, H. Champion, 1994. L’opposition entre « mélancoliques » et « enjouées » structure l’esthétique scudérienne en même temps que sa « morale du monde ».

SELLIER (Philippe), « La névrose précieuse : une nouvelle Pléiade ? », Présences féminines. Littérature et société au XVIIe siècle français, Actes de London, « Biblio 17 », Paris/ Seattle/ Tübingen, 1987, p. 95-125.

Quelques textes accessibles

DESHOULIERES (Antoinette Du Ligier de La Garde, dame), Poésies, 1688, très nombreuses rééditions jusqu’au début du XXe siècle.

LAFAYETTE (Marie-Madeleine Pioche de La Vergne, comtesse de), Œuvres complètes, éd. R. Duchêne, Paris, François Bourin, 1990. Romans, nouvelles, ainsi que la correspondance d’après l’éd. de Beaunier.

LAMBERT (Anne-Thérèse de Marguenat de Courcelles, marquise de), Œuvres, éd. R. Granderoute, Paris, Champion, 1990. Amie de Fontenelle, elle regrette « le précieux » de l’hôtel de Rambouillet et continue de promouvoir au début du XVIIIe siècle ce qu’elle appelle une « métaphysique d’amour », qui perfectionne les âmes bien nées.

MOLIERE,

- Les Précieuses ridicules. L’édition de référence reste celle de Micheline Cuénin, Genève/Paris, Droz/Minard, 1973, avec des documents et un « lexique du vocabulaire précieux » contestable mais très intéressant. Bonne édition aussi en Livre de Poche par Claude Bourqui, 1999.

- Les femmes savantes, éd. Cl. Bourqui, Le Livre de Poche, 1999.

SCUDERY (Madeleine de),

- Clélie, histoire romaine, première partie 1654, éd. critique par Chantal Morlet-Chantalat, Paris, H. Champion, 2001.

- Célinte, nouvelle première, 1661, éd. par A. Niderst, Paris, Nizet, 1979.

RATHERY et BOUTRON, Mademoiselle de Scudéry. Sa vie et sa correspondance, avec un choix de ses poésies, Paris, 1873, Genève, Slatkine Reprints, 1971.

SOMAIZE (Antoine Baudeau de), Le Grand Dictionnaire des Pretieuses, éd. Ch. L Livet, Paris, Jannet, 1856, 2 vol. Voir, plus accessible mais sans annotation, l’éd. donnée par R. Duchêne dans Les Précieuses, Fayard, 2001.

PURE (abbé Michel de), La Pretieuse ou le mystère des ruelles, dédiée à telle qui n’y pense pas, Paris, 1656-1658, éd. E. Magne, Paris, Droz, STFM, 1938-1939, 2 vol.

SABLE (marquise de), Maximes, in Moralistes du XVIIe siècle, éd. J. Lafond, Paris, R. Laffont, coll. « Bouquins », 1992.